A crise global e as mudanças vitais
- Isabel Torres
- 24 de abr. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 26 de abr. de 2021
Acredito que até março de 2020, para os brasileiros- mês que mudou as nossas vidas, subverteu a ordem, questionou as nossas certezas- não enxergávamos de forma tão concreta a nossa interdependência e fragilidades. As viagens internacionais, para os que podiam, traziam uma experiência prazerosa de viver num mundo globalizado. Mas parte crescente da nossa população continua(va) em extrema pobreza. O trabalho escravo continua(va) existindo, a degradação ambiental crescendo. Embora houvesse “profecias”, alertas de estudiosos sobre as possíveis pandemias em curso, não acreditávamos na possibilidade real, ou pagávamos pra ver. Situação muito parecida com a que estamos vivenciando na área ambiental, pois estamos sendo alertados já há bastante tempo sobre a iminência das emergências climáticas que enfrentaremos nos próximos anos.
Enquanto sociedade pagamos pra ver. E ela chegou... Chegou nos indagando em que sociedade queremos viver. Se queremos viver ou não, pois esta não é uma escolha tão óbvia quanto parece, ao menos no nosso país. Chegou e desconstruiu as nossas certezas, nos obrigou a enxergar tudo de outra forma, pois as antigas lentes já não serviam mais, nos mostrando que:
Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo que era sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com os outros homens (…) estão todos aí juntos, ao mesmo tempo agentes e pacientes do processo diluidor que desmancha no ar o que é sólido. (Karl Marx, 1848).
Há muito a nossa vida se passava numa sucessão acelerada de acontecimentos, com o tempo veloz, urgente e escasso. Os lugares nas nossas cidades eram “não lugares”, não nos pertenciam. As nossas individualidades acentuadas, em oposição ao enfraquecimento das referências coletivas (as três figuras de excesso, conceito antropológico da Supermodernidade de Augé, 1994: o espaço, o tempo e o eu, abordadas por D’Orio, 2010).
Estávamos desatentos para algumas questões que Freud alertava em 1930, em “O Mal Estar da Civilização”: O poder superior da natureza diante dos homens; A fragilidade dos nossos corpos em constante deterioração. Estávamos iludidos e cada vez mais indefesos “(...) na busca de uma imunidade contra os medos e angústias, o ser humano contemporâneo se esforça para distanciar a morte, porém, ao deixar para trás valores transcendentes, fica cada vez mais indefeso”. (D’orio, 2010).
Então, para além das tragédias cotidianas que grande parte da nossa população vivencia (as colegas trabalhadoras do Sistema Único de Assistência Social-SUAS- bem sabem o que estou falando), a sombra da morte chegou para todos.
Boris Cyrulnik, neurologista e psiquiatra francês que difundiu o conceito de Resiliência pelo mundo, ao projetar o mundo depois do COVID 19, afirmou em entrevista:
Após cada catástrofe há uma revolução cultural, inclusive biológica. Toda evolução, seja de animais, plantas ou pessoas, acontece mediante saltos para o desconhecido. (...) A vida é retomada após um desastre. Mas serão outra flora, outra fauna, outra maneira de ver o mundo que vão dominar a partir desse momento. (...) Depois do coronavírus, haverá mudanças profundas, novas leis e valores. É a regra. (Cyrulnik, 2020).
No VII Ciclo Internacional sobre Resiliência e Cultura (2020), organizado pela Rede Pikler Nossa América, em debate com Sylvia Nabinger (Assistente Social) e Sandra Cabral (Psicóloga), sobre Pandemia e Resiliência, Cyrulnik exemplificou estas mudanças abruptas que acontecem após grandes tragédias: o fim da servidão após a epidemia da Peste, período em que os trabalhadores ainda eram vendidos junto com as terras e, após a morte, em 2 anos, de metade da população da Europa, a crise na produção de alimentos se instalou. Até este momento, os camponeses que eram vendidos junto com as terras, foram subitamente valorizados após a escassez de alimentos, pondo fim a servidão. Cita ainda os avanços na luta pela emancipação das mulheres após a 2ª Guerra Mundial, quando tornou-se visível que as mulheres sustentaram a sociedade por 7 anos (serviços públicos, privados, famílias), enquanto os homens estavam na guerra, o que parecia inimaginável anos antes.
Cyrulnik, que sobreviveu ao fascismo, teve sua família dizimada em campos de concentração e hoje acompanha vítimas de traumas por guerras e tragédias mundo afora, nos faz alguns alertas: após as tragédias podem surgir também os messias, os ditadores eleitos democraticamente. Estejamos vigilantes... Podemos fazer as escolhas certas, no caso de uma Pandemia, ou continuar da mesma forma e passar a ter Pandemias cada vez mais frequentes, a cada 3 anos, a depender do que faremos agora, da nossa forma de produção e consumo (criação extensiva de animais para o abate, consumo extensivo de alimentos estrangeiros, degradação ambiental).
Para abarcar a complexidade de problemas globais, convido-os a pensar sistemicamente junto com o físico Fritjof Capra, que nos afirma que a propriedade mais importante dos sistemas vivos é o padrão de rede. Todos os seres vivos e os seus componentes funcionam em padrões de rede. Sempre que olhamos para a vida, olhamos para rede:
O poder do pensamento abstrato nos tem levado a tratar o meio ambiente natural— a teia da vida — como se ele consistisse em partes separadas, a serem exploradas comercialmente, em benefício próprio, por diferentes grupos. Além disso, estendemos essa visão fragmentada à nossa sociedade humana, dividindo-a em outra tantas nações, raças, grupos religiosos e políticos. A crença segundo a qual todos esses fragmentos — em nós mesmos, no nosso meio ambiente e na nossa sociedade — são realmente separados alienou-nos da natureza e de nossos companheiros humanos, e, dessa maneira, nos diminuiu. Para recuperar nossa plena humanidade, temos de recuperar nossa experiência de conexidade com toda a teia da vida. (Fritjof Capra, A teia da Vida, 1996).
Boaventura Santos (2001), no livro “Pela mão de Alice: o social e o político na Pós-modernidade” há 20 anos atrás nos alertava:
“A acumulação das irracionalidades no perigo iminente de catástrofe ecológica, na miséria e na fome a que é sujeita uma grande parte da população mundial, quando há recursos disponíveis para lhes proporcionar uma vida decente e uma pequena minoria da população vive numa sociedade de desperdício e morre de abundancia (...) A única utopia realista é a utopia ecológica e democrática: pressupõe a transformação global, não só dos modos de produção mas também do conhecimento científico, dos quadros de vida, das formas de sociabilidade e dos universos simbólicos e pressupõe, acima de tudo, uma nova relação paradigmática com a natureza (...). A transformação a que aspira pressupõe a repolitização da realidade e o exercício radical da cidadania individual e coletiva, incluindo nela a carta dos direitos humanos da natureza” (Boaventura de Souza Santos, 2001).
Temos, portanto, encarado essa crise mundial agravada pela Pandemia, como uma oportunidade e também uma necessidade, de realizar profundas mudanças sociais, nas formas de produção, consumo, das relações e modos de viver no planeta. Buscamos o "reconectar-se com a teia da vida", que significa nutrir e educar comunidades sustentáveis nas quais possamos satisfazer nossas aspirações e necessidades sem diminuir as chances das gerações futuras. (Capra, 1996)
Não temos mais tempo!
“A crise, a verdadeira crise é continuar como está”. Walter Benjamim.
Isabel Torres, Psicóloga, integrante do Redefinir: Psicologia e cuidado em Rede.
Link site Redefinir:

Referências:
-Capra, Fritjof. A teia da vida. Cultrix. 1996.
-Cyrulnik, Boris. Após uma catástrofe, há uma revolução cultural. Entrevista com Boris Cyrulnik. Instituto Humanitas Unisinos. 2020. Link de acesso: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598327-apos-uma-catastrofe-ha-uma-revolucao-cultural-entrevista-com-boris-cyrulnik
-Cyrulnik, Boris. Pandemia e Resiliência. VII Ciclo Internacional sobre Resiliência e Cultura (2020). REDE PIKLER NOSSA AMÉRICA. Link de acesso: (21) Boris Cyrulnik - Pandemia y Resiliencia (Audio Portugués) - YouTube
-D’Orio, Rosana Teresinha (2010). Histórias de fins, histórias sem fins...:um estudo sobre os rituais no processo de luto. Tese (Doutorado em Psicologia)- Pontifica Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010. Link de acesso: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/15939
-Santos, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice: o social e político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2001.



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